Coloquei um casaco e saí.

Saí sem rumo, sem certezas e planos. A única certeza que eu tinha é que eu não queria mais voltar para lá, apertava os olhos com força ao lembrar das suas mãos em baixo das minhas, ao tentar tira-las quando puxava o meu cabelo pra baixo. Como se pudesse disputar minha força com um homem berando os quarenta. Meus olhos mal conseguiam enxergar os carros na rua, estavam inchados por causa das lágrimas que me embaçavam a visão. Não havia ninguém na rua, era realmente tudo que eu precisava, ficar alí, sozinha. Por incrível que pareça me senti segura por estar longe de casa. Me concentrei tanto no ódio que esqueci das dores físicas. Meu cérebro tentava decifrar onde doía mais, mas desistia, porque tudo doía. A cabeça, os braços, o estômago, o coração. Lembrei de minha mãe dizendo no natal de 2004 “encontrei alguém que possa suprir a saudade que você sente do seu pai.” Eu realmente acreditei que isso fosse possível, pelas qualidades do desconhecido, pelo seu sorriso simpático, pelos planos que tinha na vida. Embora minha avó tenha sido contra, com três meses de namoro minha mãe resolveu morar na casa dele, comigo junto, é claro. O começo mais se parecia com o fim, já que dizem que os finais são felizes. Quem diz isso a uma criança de 5 anos na ausência de seu pai, não sabe a ilusão que criou sobre ela. Minha mãe se tornou completamente dependente daquele homem, mesmo dizendo que não me trocaria por absolutamente nada, ela conseguiu isso sem medir esforços. Quem me ouve falando isso diz que sou dramática, ou que tenho ciúmes, mas a verdade é que só eu sei o que eu passava quando ela não estava em casa. E não existe dor maior do que você contar pra sua mãe o que um estranho te fez e ela ignorar, como se eu fosse uma criança mentirosa. Fui rejeitada antes mesmo de me explicar, e parecia que piorava todas as vezes em que eu buscava ajuda. Eu simplesmente me calei, a única forma que eu encontrava de desabafar era me machucando…
Mãe, você lembra da vez que brigou porque eu não tinha lavado a louça e estava dormindo? Era porque o homem que faria com que eu amenizasse a saudade do meu pai me trancou três dias no quarto, sem ter o que comer, com a luz apagada. Desculpa por eu não ter lavado a louça, mas eu não podia disputar a minha força com ele, e eu precisava dormir pro tempo passar e eu arrumar a casa pra senhora. Me desculpa por todas as vezes que te fiz chorar contando a verdade, e você não acreditou em mim. Me desculpa pelos 43 comprimidos que foram caros, e eu os joguei fora. Mas foi por não querer ser a causa da sua separação, você ficava tão linda sorrindo, mesmo que fosse do lado dele. Me desculpa por tudo o que eu te causei, eu não tinha o direito de ser o motivo de nós duas estarmos morando sozinhas agora. Só quero te dizer que eu não supri a saudade do meu pai, e que eu agradaço todos os dias por você ter me visto naquele estado, pelo menos agora você confia em mim. É, mãe. Depois de 18 anos você finalmente conheceu a filha que tem, só lamento ter demorado esse tempo todo pra me conquistar. Eu aprendi a voar. Sozinha, como sempre fui.